A Carta Testemunha – estudos de caso

A Carta Testemunha é uma carta que serve para representar a pessoa para quem a leitura está sendo feita. Encontramos, geralmente, duas práticas correntes, ao longo da história do tarô, com relação à ela:

  • A primeira diz respeito dos Arcanos da Corte: até meados do séc. XX, os Arcanos da Corte eram vistos quase que exclusivamente como pessoas. Dessa maneira, diante de uma Rainha, teríamos uma mulher madura; etc. Eu, pessoalmente, acho essa leitura um tanto quanto problemática. Em primeiro lugar, porque ficar limitando cartas à pessoas é uma forma de restringir o potencial simbólico do arcano. Em segundo, porque, geralmente, quando encontramos esse tipo de leitura sendo praticada, as pessoas que são vistas são brancas, cisgênero, etc, etc. O Tarô parte de um mundo eurocêntrico e cristão, com todas as suas limitações e preconceitos cristalizados nas suas imagens. Isso não quer dizer, porém, que devamos fazer as mesmas leituras que eram feitas séculos atrás. O Tarô permanece o mesmo do séc. XVII(no caso do Marselha), mas a nossa leitura está no séc. XXI. Da mesma maneira que conseguimos ver uma previsão a respeito de uma leitura de whatsapp, também conseguimos incluir outros corpos, outras existências.
  • Alguns baralhos escolhem arcanos específicos como Carta Testemunha: vemos o Mago e a Papisa cumprindo este papel no Gran Tarot Esoterico, de Luis Peña Longa; na Sibilla della Zingara, podemos ver as cartas Valete de Copas e Rainha de Copas como Testemunha. A mesma crítica acima vale para estes casos: costumava-se ver o Mago como Carta Testemunha caso o consulente fosse um homem e, caso fosse mulher, o Mago representaria o homem/parceiro dessa pessoa. Eu gosto do caso do baralho feito por Austin Osman Spare, que fez uma carta específica para servir como Carta Testemunha, a carta “inquirer”.
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Carta Testemunha do tarô de Austin Osman Spare.

Existem, ainda, métodos que possuem uma casa testemunha. Nessas tiragens, há uma casa específica que representa o(a) consulente. É o caso da casa 1 da Mandala Astrológica e da 7 da Cruz Celta. É importante entender que a Casa Testemunha não é a mesma coisa que o momento atual da pessoa, ela representa a própria pessoa. Às vezes somos representados pelo Sol mas estamos passando por uma Torre.

Prática com a Carta Testemunha

Em minhas leituras e aulas, dou um valor muito especial para a Carta Testemunha. Nas linhas a seguir, detalharei como costumo utilizar esta prática.

Minha leitura é composta de duas partes: a primeira é um jogo geral, com diversos aspectos da vida de meu/minha consulente. Para isso, uso o Tabuleiro, um método que já tem uma casa testemunha: a casa do Louco. Como o próprio método possui uma casa testemunha, não vejo a necessidade de tirar uma carta. Caso você use algum método que não tenha essa casa, eu aconselho que você tira uma carta antes de iniciar a leitura. A carta testemunha vale mais para quem o/a cartomante do que para seu/sua cliente. A partir dela, tiramos informações essenciais para o nosso jogo. Por exemplo, se a pessoa tem o Sol como Carta Testemunha, podemos saber que ela será bastante racional, um tanto quanto alegre (talvez um pouco arrogante) – sabendo isso, já “ajustamos” a forma como diremos as informações presentes no jogo. É diferente, por exemplo, se a pessoa é representada com a Lua: está confusa, talvez esconda informações, e chegar até ela pode ser mais difícil.

Qualquer carta pode servir de Testemunha. Como eu uso o Tabuleiro, que usa somente os Arcanos Maiores – então minha carta testemunha é sempre um Arcano Maior.

Um exemplo de Tabuleiro. A carta acima (a Roda da Fortuna) é a Carta Testemunha.

Exemplo de Leitura com a Roda da Fortuna como Carta Testemunha

A primeira coisa que penso é a respeito da natureza da própria Roda da Fortuna: incerta, inconstante. Conta muito com a própria sorte, um tanto quanto desapegada, etc. Após isso, começo a leitura normal. Digamos que, em uma leitura linear, apareça a seguinte configuração:

Considerando uma leitura na Escola Inglesa, na qual o 3 de espadas torna-se uma carta de dor, leria o seguinte: uma possibilidade de renovação emocional, quem sabe uma boa notícia ou mesmo um encontro amoroso chega até a pessoa para quem jogo mas ela própria, seja por inconstância, que por falta de atenção – transforma a situação em um motivo para dor e desespero.

Neste caso, a Roda da Fortuna não será, necessariamente, um fator externo, como seria em algum outro jogo, pois a pessoa para quem jogo é o próprio Arcano X!

Vamos a outro exemplo:

Desta vez, usarei o Mago como Carta Testemunha.

Nessa leitura, a pessoa para quem jogo pede análise a respeito de uma oportunidade que surgiu no emprego para mudança de cargo e a qual ela aceitou. Tirei três cartas, associando as casas da seguinte maneira, da esquerda para a direita: o que deve ser feito, o resultado iminente e o que bloqueia a situação.

O Mago é uma carta que fala, além da questão da vontade e ânimo, de uma superficialidade e imaturidade, uma certa imprudência. Diante deste jogo, temos uma Papisa em situação de conselho, que pede prudência, que a pessoa tenha mais experiência. Sabemos, contudo, diante do relato do/a cliente, que ela/e já aceitou o cargo, e não espanta que a própria carta testemunha esteja no local de bloqueio. O que impede futuros sucessos e êxitos é a própria imaturidade e fogo no rabo do/a consulente. O Oito de Paus, na Escola Inglesa, fala justamente em um processo que, por mais que não seja ruim em si, é um tanto quando atropelado, feito muito no improviso. Ou seja, não temos um jogo ruim, mas temos uma Papisa mal aproveitada.

O uso da Carta Testemunha me ajuda muito a dar uma camada a mais nas minhas leituras e aulas. Me diz o que achou nos comentários. 🙂

PS: se, no jogo, não sair a Carta Testemunha, segue a leitura normal. Não é sinal nenhum, necessariamente. 😉

Julio Soares

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