Recomendações de livros de Tarô

O mercado editorial está sempre produzindo. Nunca se viram tantos baralhos e livros de tarô em produção como atualmente. Tarô para iniciantes, tarô e psicologia, tarô e cabala, tarô e magia, tarô e amor. Para quem está começando, é fácil se sentir seduzido(a/e) por tanta oferta. Mas é importante ressaltar que quantidade de produção e qualidade não são a mesma coisa.

Faço essa lista pensando em livros que considero importantes para o desenvolvimento de alguém dentro da cartomancia. Além disso, colocarei algumas notas sobre o que poderíamos considerar um “nível” de leitura. Porém, digo o seguinte: por mais que uma leitura seja recomendada para níveis iniciantes, o(a) bom leitor(a/e) está sempre desconfiado(a/e). Ler livros como se fossem manuais rígidos e únicos pode ser problemático, e o mesmo ocorre com listas de indicação. Uma lista de indicação nunca é fixa, pois mesmo eu leio sempre cada vez mais. Tenham isso em mente. Precisamos ler muito, muito mesmo. Cartomantes precisam de bibliotecas, precisam comparar leituras, reavaliar ideias. Com o tempo, vemos que, por exemplo, repetições de propostas semelhantes criam padrões de qualidade. Se todos os livros dizem que arcano x significa uma coisa, e livro y diz algo contrário sem alguma justificativa bem defendida, temos um motivo para desconfiar de livro y.

Não me limitarei a livros em português, assim como muitos dos títulos só podem ser encontrados em sebos. Infelizmente, o mercado editorial tarológico é um tanto quanto fraco nos dias atuais. Além disso, indicarei principalmente títulos relacionados ao Tarô de Marselha, sendo este o tarô mais indicado para iniciantes. Aqueles que têm outros tarôs em suas páginas geralmente os usam como exemplo, mas não necessariamente como foco de estudo.

Por último: essa lista poderia ser infinita. Há muitos mais livros que eu poderia recomendar, mas vou tentar manter as coisas da forma mais coerente possível com a realidade de quem está começando seus estudos. Livros mais específicos ou avançados ficarão para outras listas ou resenhas.

“O Tarô ou a Máquina de Imaginar”, Alberto Cousté.

O livro de Cousté, traduzido pela poeta Ana Cristina César e publicado em 1977 no Brasil é um dos clássicos mais importantes em território nacional. Cousté compila as visões sobre o tarô de autores importantíssimos como Oswald Wirth, Paul Marteau e Eliphas Lévi. A parte histórica fica por Gérard Van Rijneberk, do livro “Le Tarot, Histoire, Iconographie, Esotérisme”, que, por mais que seja um clássico essencial, tem certos dados já defasados.

Na minha opinião, a obra de Cousté se destaca por dois pontos: é o primeiro livro em português a trazer as ideias de Oswald Wirth, meu teórico do tarô favorito. Cousté fala a respeito das teorias binária, setenária e ternária, essenciais na obra de Wirth. Além disso, há a parte poética, a visão do tarô como uma verdadeira máquina de imaginar, cujas combinações infinitas se aproximam do fazer literário. A parte dois, chamada de “ofício do adivinho”, contém um dos textos mais bonitos e essenciais sobre o fazer cartomântico que já conheci.

Recomendo para iniciantes? Sim. É importante dizer, porém, que isso não indica que a leitura é “fácil” ou “difícil”. Os melhores livros são aqueles que a cada releitura têm algo novo a dizer, já diria Calvino. Eu releio o Cousté sempre que possível. Algumas coisas ficam mais claras com o tempo – especialmente depois que lemos as obras que ele cita como fonte para a sua escrita.

Você pode baixar o PDF dele aqui.

Trilogia de Estudos Completos do Tarô e Curso Completo de Tarô, Nei Naiff

É impossível falar de tarô no Brasil sem citar Nei Naiff. A obra dele foi a minha porta de entrada na área, então tenho um lugar especial pra ele no meu coração. A trilogia de estudos completos do tarô é, possivelmente, o guia de tarô mais sofisticado e didático do mundo. Nei Naiff compila, ao longo dos três títulos, “Simbologia e Ocultismo”, “Vida e Destino” e “Oráculo e Métodos”, todo o conhecimento que acumulou em sua carreira como tarólogo e professor de tarô. Eu considero essa a primeira leitura essencial, visto que a trilogia dá o chão firme o qual precisamos no início de nossos estudos.

Inclusive, uma dica: leia um livro de cada vez, sempre. Ler dez livros de tarô (ou qualquer outra área) ao mesmo tempo é a receita perfeita da bomba atômica. As ideias se confundem e se contradizem, e, por não saber muito sobre a visão e linha teórica de nenhum dos autores lidos, a tendência é o surto mesmo. Vai com calma.

O Curso Completo de Tarot foi o meu primeiro livro. É como um resumo da trilogia, com direito a exercícios práticos. É o melhor livro para começar a entender o pensamento de Nei e uma ótima introdução para a trilogia de estudos completos.

Além disso, temos um lado extremamente positivo: a obra de Nei Naiff é reeditada sempre, sendo extremamente fácil de encontrar. A editora Alfabeto, que publica os livros dele atualmente, está sempre com descontos gigantescos pra compra desses livros no site deles. Recomendo de olhos fechados.

Recomendo para iniciantes? Sim.

O Tarô de Marselha Revelado, Yoav Ben-Dov

Ben-Dov traz uma literatura de escola francesa um tanto quanto refrescante, trazendo novas ponderações para pensamentos iniciados em Tchalai Ünger e Paul Marteau, com uma visão objetiva sobre os arcanos. É uma leitura muito gostosa. Mesmo tendo sido aluno de Jodorowsky, autor que me causa certo desconforto, a sua visão se afasta de maneira bastante coerente com a de seu professor, criando uma obra muito coesa.

Recomendo para iniciantes? Sim.

The Tarot – History, Symbolism and Divination, Robert Place.

Neste livro, Robert Place traz uma abordagem histórica maravilhosa, que acompanha quem o lê de forma gentil pelo significado dos Arcanos.

Recomendo para iniciantes? Sim.

Tarô: dicionário e compêndio. Jana Riley

Dicionários importam. Engana-se quem acha que só existe dicionário de idiomas: essa classe de livros se abrange a todas as áreas, e não seria diferente com o tarô. A obra de Riley compila diversos autores essenciais para o Tarot. O único problema nesse livro é que as definições dos arcanos são cortadas de seu livro original e colocadas no livro em comparação com outros de maneira um tanto quanto aleatória. Me explico: antes de um(a) autor(a) fazer sentido em relação à outra obra, deve ter sentido dentro de sua própria criação. Dessa maneira, ao retirar uma definição e colocá-la em uma página em branco sem contextualização pode ser um pouco complicado. No caso de Riley, por exemplo, vê-se autores de escola francesa e inglesa misturados, o que pode fazer com que quem esteja lendo tenha problemas na compreensão.

Recomendo para iniciantes? Sim, mas com cautela. Não é uma primeira leitura.

O Tarô de Marselha – tradição e simbolismo, Paul Marteau.

Paul Marteau é quem fundou o termo “tarô de Marselha”, dando início a uma nova onda de pensamento na literatura francesa sobre o Tarô. Um livro essencial a todo mundo que queira se aprofundar na cartomancia.

Recomendo para iniciantes? Sim.

Tarot Cards for Fun and Fortune Telling e Tarot Clássico, Stuart Kaplan.

Stuart Kaplan é um nome do qual não podemos fugir ao estudar o Tarô. O autor, que infelizmente faleceu no início de 2021, foi um dos nomes mais importantes para a evolução do Tarô no mundo. Ele foi, por exemplo, o responsável pela popularização do padrão Smith-Waite. Tarot Cards for Fun and Fortune Telling é o seu primeiro livro de tarô, trazendo informações precisas. As obras dele sempre dignificam a biblioteca da gente.

Recomendo para iniciantes? Sim.

Cartas e Destino, Hadés.

Este livro ganha destaque em dois pontos: ser um dos poucos que fala a respeito da teoria dos encontros, essencial para a leitura linear – e pelo foco no método da mandala astrológica. Uma leitura muito boa, se feita com cautela.

Recomendo para iniciantes? Não como primeira leitura. No meu instagram, há uma resenha mais completa dele no meu IGTV (e da maior parte dos livros citados aqui), recomendo que você assista.

Le Tarot des Imagiers du Moyen Âge, Oswald Wirth.

Wirth é meu teórico favorito em tarologia. Seu livro, lançado nos anos 20, é o primeiro livro moderno de tarô, a partir do qual o pensamento começa a se descolar do esoterismo tolo que vimos em muitas obras do século XIX. Foi o criador da teoria binária, que é a base de minha prática. É dele a frase “adivinhar é imaginar com justeza”, que, segundo minha opinião, é a gênese do fazer cartomântico.

Recomendo para iniciantes? Com mais cautela do que alguns livros. Requer algumas releituras. No clube de conteúdo exclusivo do Fortuna Arcana, fazemos a leitura comentada dele mensalmente.

Títulos para se aprofundar – aspectos específicos.

A partir daqui, recomendarei livros sobre assuntos mais definidos, tais como história do tarô, tarô e cabala, etc. Isso não indica que esses livros não são pensados para iniciantes, mas eles requerem uma leitura mais cautelosa.

Alquimia e Tarô, Robert M. Place.

Robert Place é um dos autores contemporâneos mais importantes nos estudos de tarô. Com linguagem objetiva, ele consegue escrever sobre o tarô a partir da alquimia sem fazer com que um conhecimento seja dependente do outro. Uma investigação histórica maravilhosa.

Recomendo para iniciantes? Sim, desde que saiba-se entender que tarô não é alquimia (ou mitologia, astrologia, cabala, etc), mas que são elementos que conversam entre si.

O Tarô: uma história crítica – dos primórdios medievais à experiência quântica, Cynthia Giles.

Mesmo com um título brega que olha (sério, precisava de algo além de “história crítica?”), este é um dos melhores livros sobre história do tarô que conheço. Conciso e intransigente, a visão de Giles é essencial para quem quer se aprofundar.

O Tarô Cabalístico, Robert Wang.

Considero a obra de Wang um ótimo ponto de entrada para o entendimento da lógica da escola inglesa. A partir desse livro, o pensamento de Waite, Crowley e outros autores ligados à Golden Dawn fica muito mais claro. O destaque dele é justamente o fato de que a lógica por trás das associações que existem na escola inglesa é mostrada de forma objetiva e prática.

Recomendo para iniciantes? Só para quem já tem alguma base sólida.

La Storia dei Tarocchi, Giordano Berti.

A obra de Berti foi objeto do meu estágio em tradução do italiano na faculdade, onde traduzi algumas partes dele. Berti traz as informações históricas de maneira muito linear, conseguindo guiar a leitura de maneira fluida. Um dos meus favoritos.

Recomendo para iniciantes? Sim.

A Cultural History of Tarot – from Entertainment to Esotericism, Helen Farley.

Um dos melhores livros de história do tarô que conheço.

Recomendo para iniciantes? Sim.

The Encyclopedia of Tarot, Stuart Kaplan.

É impossível falar em história do Tarot sem citar os quatro livros escritos por Stuart Kaplan, que são referência absoluta no assunto. Se você encontrar qualquer um dos seus volumes em algum sebo, saiba que é uma preciosidade.

Recomendo para iniciantes? Sim.

Historia del Tarot, Isabelle Nadolny.

Gosto muito da Nadolny. Acredito que ela seja uma das poucas historiadoras do tarô que ainda consiga ter um efeito provocante no meio. Suas teorias costumam ser muito diferentes das propostas pela maior parte dos especialistas, trazendo possibilidade muito interessantes. Em uma conversa que tive com ela, ela me disse que esse livro vai chegar no Brasil ano que vem. Estou no aguardo.

Recomendo para iniciantes? Sim.

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