Recomendações de livros de Tarô

O mercado editorial está sempre produzindo. Nunca se viram tantos baralhos e livros de tarô em produção como atualmente. Tarô para iniciantes, tarô e psicologia, tarô e cabala, tarô e magia, tarô e amor. Para quem está começando, é fácil se sentir seduzido(a/e) por tanta oferta. Mas é importante ressaltar que quantidade de produção e qualidade não são a mesma coisa.

Faço essa lista pensando em livros que considero importantes para o desenvolvimento de alguém dentro da cartomancia. Além disso, colocarei algumas notas sobre o que poderíamos considerar um “nível” de leitura. Porém, digo o seguinte: por mais que uma leitura seja recomendada para níveis iniciantes, o(a) bom leitor(a/e) está sempre desconfiado(a/e). Ler livros como se fossem manuais rígidos e únicos pode ser problemático, e o mesmo ocorre com listas de indicação. Uma lista de indicação nunca é fixa, pois mesmo eu leio sempre cada vez mais. Tenham isso em mente. Precisamos ler muito, muito mesmo. Cartomantes precisam de bibliotecas, precisam comparar leituras, reavaliar ideias. Com o tempo, vemos que, por exemplo, repetições de propostas semelhantes criam padrões de qualidade. Se todos os livros dizem que arcano x significa uma coisa, e livro y diz algo contrário sem alguma justificativa bem defendida, temos um motivo para desconfiar de livro y.

Não me limitarei a livros em português, assim como muitos dos títulos só podem ser encontrados em sebos. Infelizmente, o mercado editorial tarológico é um tanto quanto fraco nos dias atuais. Além disso, indicarei principalmente títulos relacionados ao Tarô de Marselha, sendo este o tarô mais indicado para iniciantes. Aqueles que têm outros tarôs em suas páginas geralmente os usam como exemplo, mas não necessariamente como foco de estudo.

Por último: essa lista poderia ser infinita. Há muitos mais livros que eu poderia recomendar, mas vou tentar manter as coisas da forma mais coerente possível com a realidade de quem está começando seus estudos. Livros mais específicos ou avançados ficarão para outras listas ou resenhas.

“O Tarô ou a Máquina de Imaginar”, Alberto Cousté.

O livro de Cousté, traduzido pela poeta Ana Cristina César e publicado em 1977 no Brasil é um dos clássicos mais importantes em território nacional. Cousté compila as visões sobre o tarô de autores importantíssimos como Oswald Wirth, Paul Marteau e Eliphas Lévi. A parte histórica fica por Gérard Van Rijneberk, do livro “Le Tarot, Histoire, Iconographie, Esotérisme”, que, por mais que seja um clássico essencial, tem certos dados já defasados.

Na minha opinião, a obra de Cousté se destaca por dois pontos: é o primeiro livro em português a trazer as ideias de Oswald Wirth, meu teórico do tarô favorito. Cousté fala a respeito das teorias binária, setenária e ternária, essenciais na obra de Wirth. Além disso, há a parte poética, a visão do tarô como uma verdadeira máquina de imaginar, cujas combinações infinitas se aproximam do fazer literário. A parte dois, chamada de “ofício do adivinho”, contém um dos textos mais bonitos e essenciais sobre o fazer cartomântico que já conheci.

Recomendo para iniciantes? Sim. É importante dizer, porém, que isso não indica que a leitura é “fácil” ou “difícil”. Os melhores livros são aqueles que a cada releitura têm algo novo a dizer, já diria Calvino. Eu releio o Cousté sempre que possível. Algumas coisas ficam mais claras com o tempo – especialmente depois que lemos as obras que ele cita como fonte para a sua escrita.

Você pode baixar o PDF dele aqui.

Trilogia de Estudos Completos do Tarô e Curso Completo de Tarô, Nei Naiff

É impossível falar de tarô no Brasil sem citar Nei Naiff. A obra dele foi a minha porta de entrada na área, então tenho um lugar especial pra ele no meu coração. A trilogia de estudos completos do tarô é, possivelmente, o guia de tarô mais sofisticado e didático do mundo. Nei Naiff compila, ao longo dos três títulos, “Simbologia e Ocultismo”, “Vida e Destino” e “Oráculo e Métodos”, todo o conhecimento que acumulou em sua carreira como tarólogo e professor de tarô. Eu considero essa a primeira leitura essencial, visto que a trilogia dá o chão firme o qual precisamos no início de nossos estudos.

Inclusive, uma dica: leia um livro de cada vez, sempre. Ler dez livros de tarô (ou qualquer outra área) ao mesmo tempo é a receita perfeita da bomba atômica. As ideias se confundem e se contradizem, e, por não saber muito sobre a visão e linha teórica de nenhum dos autores lidos, a tendência é o surto mesmo. Vai com calma.

O Curso Completo de Tarot foi o meu primeiro livro. É como um resumo da trilogia, com direito a exercícios práticos. É o melhor livro para começar a entender o pensamento de Nei e uma ótima introdução para a trilogia de estudos completos.

Além disso, temos um lado extremamente positivo: a obra de Nei Naiff é reeditada sempre, sendo extremamente fácil de encontrar. A editora Alfabeto, que publica os livros dele atualmente, está sempre com descontos gigantescos pra compra desses livros no site deles. Recomendo de olhos fechados.

Recomendo para iniciantes? Sim.

O Tarô de Marselha Revelado, Yoav Ben-Dov

Ben-Dov traz uma literatura de escola francesa um tanto quanto refrescante, trazendo novas ponderações para pensamentos iniciados em Tchalai Ünger e Paul Marteau, com uma visão objetiva sobre os arcanos. É uma leitura muito gostosa. Mesmo tendo sido aluno de Jodorowsky, autor que me causa certo desconforto, a sua visão se afasta de maneira bastante coerente com a de seu professor, criando uma obra muito coesa.

Recomendo para iniciantes? Sim.

The Tarot – History, Symbolism and Divination, Robert Place.

Neste livro, Robert Place traz uma abordagem histórica maravilhosa, que acompanha quem o lê de forma gentil pelo significado dos Arcanos.

Recomendo para iniciantes? Sim.

Tarô: dicionário e compêndio. Jana Riley

Dicionários importam. Engana-se quem acha que só existe dicionário de idiomas: essa classe de livros se abrange a todas as áreas, e não seria diferente com o tarô. A obra de Riley compila diversos autores essenciais para o Tarot. O único problema nesse livro é que as definições dos arcanos são cortadas de seu livro original e colocadas no livro em comparação com outros de maneira um tanto quanto aleatória. Me explico: antes de um(a) autor(a) fazer sentido em relação à outra obra, deve ter sentido dentro de sua própria criação. Dessa maneira, ao retirar uma definição e colocá-la em uma página em branco sem contextualização pode ser um pouco complicado. No caso de Riley, por exemplo, vê-se autores de escola francesa e inglesa misturados, o que pode fazer com que quem esteja lendo tenha problemas na compreensão.

Recomendo para iniciantes? Sim, mas com cautela. Não é uma primeira leitura.

O Tarô de Marselha – tradição e simbolismo, Paul Marteau.

Paul Marteau é quem fundou o termo “tarô de Marselha”, dando início a uma nova onda de pensamento na literatura francesa sobre o Tarô. Um livro essencial a todo mundo que queira se aprofundar na cartomancia.

Recomendo para iniciantes? Sim.

Tarot Cards for Fun and Fortune Telling e Tarot Clássico, Stuart Kaplan.

Stuart Kaplan é um nome do qual não podemos fugir ao estudar o Tarô. O autor, que infelizmente faleceu no início de 2021, foi um dos nomes mais importantes para a evolução do Tarô no mundo. Ele foi, por exemplo, o responsável pela popularização do padrão Smith-Waite. Tarot Cards for Fun and Fortune Telling é o seu primeiro livro de tarô, trazendo informações precisas. As obras dele sempre dignificam a biblioteca da gente.

Recomendo para iniciantes? Sim.

Cartas e Destino, Hadés.

Este livro ganha destaque em dois pontos: ser um dos poucos que fala a respeito da teoria dos encontros, essencial para a leitura linear – e pelo foco no método da mandala astrológica. Uma leitura muito boa, se feita com cautela.

Recomendo para iniciantes? Não como primeira leitura. No meu instagram, há uma resenha mais completa dele no meu IGTV (e da maior parte dos livros citados aqui), recomendo que você assista.

Le Tarot des Imagiers du Moyen Âge, Oswald Wirth.

Wirth é meu teórico favorito em tarologia. Seu livro, lançado nos anos 20, é o primeiro livro moderno de tarô, a partir do qual o pensamento começa a se descolar do esoterismo tolo que vimos em muitas obras do século XIX. Foi o criador da teoria binária, que é a base de minha prática. É dele a frase “adivinhar é imaginar com justeza”, que, segundo minha opinião, é a gênese do fazer cartomântico.

Recomendo para iniciantes? Com mais cautela do que alguns livros. Requer algumas releituras. No clube de conteúdo exclusivo do Fortuna Arcana, fazemos a leitura comentada dele mensalmente.

Títulos para se aprofundar – aspectos específicos.

A partir daqui, recomendarei livros sobre assuntos mais definidos, tais como história do tarô, tarô e cabala, etc. Isso não indica que esses livros não são pensados para iniciantes, mas eles requerem uma leitura mais cautelosa.

Alquimia e Tarô, Robert M. Place.

Robert Place é um dos autores contemporâneos mais importantes nos estudos de tarô. Com linguagem objetiva, ele consegue escrever sobre o tarô a partir da alquimia sem fazer com que um conhecimento seja dependente do outro. Uma investigação histórica maravilhosa.

Recomendo para iniciantes? Sim, desde que saiba-se entender que tarô não é alquimia (ou mitologia, astrologia, cabala, etc), mas que são elementos que conversam entre si.

O Tarô: uma história crítica – dos primórdios medievais à experiência quântica, Cynthia Giles.

Mesmo com um título brega que olha (sério, precisava de algo além de “história crítica?”), este é um dos melhores livros sobre história do tarô que conheço. Conciso e intransigente, a visão de Giles é essencial para quem quer se aprofundar.

O Tarô Cabalístico, Robert Wang.

Considero a obra de Wang um ótimo ponto de entrada para o entendimento da lógica da escola inglesa. A partir desse livro, o pensamento de Waite, Crowley e outros autores ligados à Golden Dawn fica muito mais claro. O destaque dele é justamente o fato de que a lógica por trás das associações que existem na escola inglesa é mostrada de forma objetiva e prática.

Recomendo para iniciantes? Só para quem já tem alguma base sólida.

La Storia dei Tarocchi, Giordano Berti.

A obra de Berti foi objeto do meu estágio em tradução do italiano na faculdade, onde traduzi algumas partes dele. Berti traz as informações históricas de maneira muito linear, conseguindo guiar a leitura de maneira fluida. Um dos meus favoritos.

Recomendo para iniciantes? Sim.

A Cultural History of Tarot – from Entertainment to Esotericism, Helen Farley.

Um dos melhores livros de história do tarô que conheço.

Recomendo para iniciantes? Sim.

The Encyclopedia of Tarot, Stuart Kaplan.

É impossível falar em história do Tarot sem citar os quatro livros escritos por Stuart Kaplan, que são referência absoluta no assunto. Se você encontrar qualquer um dos seus volumes em algum sebo, saiba que é uma preciosidade.

Recomendo para iniciantes? Sim.

Historia del Tarot, Isabelle Nadolny.

Gosto muito da Nadolny. Acredito que ela seja uma das poucas historiadoras do tarô que ainda consiga ter um efeito provocante no meio. Suas teorias costumam ser muito diferentes das propostas pela maior parte dos especialistas, trazendo possibilidade muito interessantes. Em uma conversa que tive com ela, ela me disse que esse livro vai chegar no Brasil ano que vem. Estou no aguardo.

Recomendo para iniciantes? Sim.

A Carta Testemunha – estudos de caso

A Carta Testemunha é uma carta que serve para representar a pessoa para quem a leitura está sendo feita. Encontramos, geralmente, duas práticas correntes, ao longo da história do tarô, com relação à ela:

  • A primeira diz respeito dos Arcanos da Corte: até meados do séc. XX, os Arcanos da Corte eram vistos quase que exclusivamente como pessoas. Dessa maneira, diante de uma Rainha, teríamos uma mulher madura; etc. Eu, pessoalmente, acho essa leitura um tanto quanto problemática. Em primeiro lugar, porque ficar limitando cartas à pessoas é uma forma de restringir o potencial simbólico do arcano. Em segundo, porque, geralmente, quando encontramos esse tipo de leitura sendo praticada, as pessoas que são vistas são brancas, cisgênero, etc, etc. O Tarô parte de um mundo eurocêntrico e cristão, com todas as suas limitações e preconceitos cristalizados nas suas imagens. Isso não quer dizer, porém, que devamos fazer as mesmas leituras que eram feitas séculos atrás. O Tarô permanece o mesmo do séc. XVII(no caso do Marselha), mas a nossa leitura está no séc. XXI. Da mesma maneira que conseguimos ver uma previsão a respeito de uma leitura de whatsapp, também conseguimos incluir outros corpos, outras existências.
  • Alguns baralhos escolhem arcanos específicos como Carta Testemunha: vemos o Mago e a Papisa cumprindo este papel no Gran Tarot Esoterico, de Luis Peña Longa; na Sibilla della Zingara, podemos ver as cartas Valete de Copas e Rainha de Copas como Testemunha. A mesma crítica acima vale para estes casos: costumava-se ver o Mago como Carta Testemunha caso o consulente fosse um homem e, caso fosse mulher, o Mago representaria o homem/parceiro dessa pessoa. Eu gosto do caso do baralho feito por Austin Osman Spare, que fez uma carta específica para servir como Carta Testemunha, a carta “inquirer”.
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Carta Testemunha do tarô de Austin Osman Spare.

Existem, ainda, métodos que possuem uma casa testemunha. Nessas tiragens, há uma casa específica que representa o(a) consulente. É o caso da casa 1 da Mandala Astrológica e da 7 da Cruz Celta. É importante entender que a Casa Testemunha não é a mesma coisa que o momento atual da pessoa, ela representa a própria pessoa. Às vezes somos representados pelo Sol mas estamos passando por uma Torre.

Prática com a Carta Testemunha

Em minhas leituras e aulas, dou um valor muito especial para a Carta Testemunha. Nas linhas a seguir, detalharei como costumo utilizar esta prática.

Minha leitura é composta de duas partes: a primeira é um jogo geral, com diversos aspectos da vida de meu/minha consulente. Para isso, uso o Tabuleiro, um método que já tem uma casa testemunha: a casa do Louco. Como o próprio método possui uma casa testemunha, não vejo a necessidade de tirar uma carta. Caso você use algum método que não tenha essa casa, eu aconselho que você tira uma carta antes de iniciar a leitura. A carta testemunha vale mais para quem o/a cartomante do que para seu/sua cliente. A partir dela, tiramos informações essenciais para o nosso jogo. Por exemplo, se a pessoa tem o Sol como Carta Testemunha, podemos saber que ela será bastante racional, um tanto quanto alegre (talvez um pouco arrogante) – sabendo isso, já “ajustamos” a forma como diremos as informações presentes no jogo. É diferente, por exemplo, se a pessoa é representada com a Lua: está confusa, talvez esconda informações, e chegar até ela pode ser mais difícil.

Qualquer carta pode servir de Testemunha. Como eu uso o Tabuleiro, que usa somente os Arcanos Maiores – então minha carta testemunha é sempre um Arcano Maior.

Um exemplo de Tabuleiro. A carta acima (a Roda da Fortuna) é a Carta Testemunha.

Exemplo de Leitura com a Roda da Fortuna como Carta Testemunha

A primeira coisa que penso é a respeito da natureza da própria Roda da Fortuna: incerta, inconstante. Conta muito com a própria sorte, um tanto quanto desapegada, etc. Após isso, começo a leitura normal. Digamos que, em uma leitura linear, apareça a seguinte configuração:

Considerando uma leitura na Escola Inglesa, na qual o 3 de espadas torna-se uma carta de dor, leria o seguinte: uma possibilidade de renovação emocional, quem sabe uma boa notícia ou mesmo um encontro amoroso chega até a pessoa para quem jogo mas ela própria, seja por inconstância, que por falta de atenção – transforma a situação em um motivo para dor e desespero.

Neste caso, a Roda da Fortuna não será, necessariamente, um fator externo, como seria em algum outro jogo, pois a pessoa para quem jogo é o próprio Arcano X!

Vamos a outro exemplo:

Desta vez, usarei o Mago como Carta Testemunha.

Nessa leitura, a pessoa para quem jogo pede análise a respeito de uma oportunidade que surgiu no emprego para mudança de cargo e a qual ela aceitou. Tirei três cartas, associando as casas da seguinte maneira, da esquerda para a direita: o que deve ser feito, o resultado iminente e o que bloqueia a situação.

O Mago é uma carta que fala, além da questão da vontade e ânimo, de uma superficialidade e imaturidade, uma certa imprudência. Diante deste jogo, temos uma Papisa em situação de conselho, que pede prudência, que a pessoa tenha mais experiência. Sabemos, contudo, diante do relato do/a cliente, que ela/e já aceitou o cargo, e não espanta que a própria carta testemunha esteja no local de bloqueio. O que impede futuros sucessos e êxitos é a própria imaturidade e fogo no rabo do/a consulente. O Oito de Paus, na Escola Inglesa, fala justamente em um processo que, por mais que não seja ruim em si, é um tanto quando atropelado, feito muito no improviso. Ou seja, não temos um jogo ruim, mas temos uma Papisa mal aproveitada.

O uso da Carta Testemunha me ajuda muito a dar uma camada a mais nas minhas leituras e aulas. Me diz o que achou nos comentários. 🙂

PS: se, no jogo, não sair a Carta Testemunha, segue a leitura normal. Não é sinal nenhum, necessariamente. 😉

Julio Soares

“O Caminho do Tarot”, de Alejandro Jodorowsky e Marianne Costa — uma resenha crítica.

(Texto originalmente publicado no instagram Fortuna Arcana)

Para que a minha leitura a respeito do livro “O Caminho do Tarot”, publicado no Brasil pelo selo Chave em 2016, seja compreendida, acho importante fazer alguma contextualização. Primeiramente, é necessário falar a respeito do Tarô de Marselha.

Jodorowsky defende que possui o propósito (e, segundo ele, possui o êxito) de “restaurar o Tarô de Marselha”. Contatado por Philippe Camoin, um descendente da família que produzia o baralho conhecido como “Nicolas Conver”, sendo o baralho Marselhês mais popular (e um dos mais produzidos pelas editoras brasileiras). De modo que é descrito como um tanto milagroso, Jodorowsky propôs a ele a reconstrução do Tarô de Marselha com base em baralhos pertencentes à família e também em pranchas de impressão. Jodorowsky possuía um baralho de Paul Marteau — um de seus mentores — , uma réplica do baralho Besançon, do século XIX, provavelmente publicado pela casa Grimaud. A crítica de Jodorowsky, tanto ao baralho de Nicolas Conver quanto ao Besançon, é que ambos são “cópias”, feitas em máquinas de impressão. A dita restauração do baralho tinha como objetivo chegar ao “Marselha original”.

O próprio autor escreve, na introdução: “depois de um ano de pesquisas, nós nos demos conta da imensidão da tarefa que ainda tínhamos pela frente. Não se tratava de trocar alguns detalhes, nem de clarear algumas poucas linhas, era necessário restaurar o Tarot inteiro, devolvendo-lhe suas cores originais, pintadas manualmente, e os desenhos que os sucessivos copistas acabaram apagando. […] Os exemplares do século XVIII são cópias dos anteriores, e portanto não podíamos aceitar que um Tarot do século XVIII fosse o original. Era bem possível que a versão de Nicolas Conver de 1760 contivesse erros e omissões. Se no início os desenhos eram pintados manualmente, o número de cores foi limitado quando as máquinas industriais apareceram nas gráficas do século XIX. […] Aqueles que não eram iniciados simplificaram ao máximo os símbolos e os que copiaram acrescentaram outros erros a esses erros.” 
A proposta de Jodorowsky me parece vir de um local onde há certa inconsistência a respeito da História do Tarô: há a suposição de um baralho original, feito por “iniciados”. É extremamente importante pensarmos que a história do Tarô não é tão linear, sendo que o que hoje conhecemos como “Tarô de Marselha” é, na realidade, um padrão imagético que tem suas origens em diversos baralhos criados na Lombardia, norte da Itália. Esse padrão passou por diversas transformações ao longo dos séculos XIV e XV, mudando cores e formatos a depender do autor e país onde era produzido, até chegar a uma consistência maior nos séculos XVI e XVII, quando realmente “nasce” o Tarô de Marselha. Este nascimento está muito ligado às tecnologias de xilogravura, litogravura e cinzel. Jodorowsky diz ter encontrado, no México, um “Tarô de Marselha completamente pintado à mão”, o que me faz pensar em duas questões: ou esta afirmação não é verdadeira, ou o baralho em posse do autor não é bem um Marselha, mas sim um de seus influenciadores. É importante ressaltar, por exemplo, a respeito das cores, que estas mudam de acordo com a tipologia do baralho (existem os Marselhas de tipo 1, os mais antigos; e os de tipo 2, dos quais entram o padrão Conver), e me surpreende que Jodorowsky não cite estas tipologias ou mesmo o baralho de Jean Noblet, o baralho de Marselha mais antigo do mundo. 
Além do mais, os baralhos de padrão Marselhês já nascem em um período em que a produção através de técnicas de impressão como cinzel, litogravura e xilogravura já eram bastante populares dentro da produção de cartas, o que me faz desconfiar bastante deste “baralho de Marselha pintado à mão”. Não existe um baralho Marselhês “original”, e muito menos um “puro, iniciático”, visto que, até o século XIX, os baralhos eram feitos quase que exclusivamente para fins lúdicos. Marselha é construção, herança de séculos de evolução iconográfica e histórica.

LINGUAGEM DOS PÁSSAROS

A chamada linguagem dos pássaros é uma forma de leitura constituída por um viés poético. O maior nome, atualmente, desta escola (por escola, digo uma grupo de pessoas com pensamentos semelhantes, não estou falando de institucionalizações de pensamento), é Enrique Enriquez, um poeta de Nova York. O autor Dale Pendell também escreveu sobre a linguagem dos pássaros no livro “The Language of the Birds: some notes on chance and divination”, de 2009. Uma leitura excepcional. Há, ainda, Tchalaï Unger, uma das mentoras de Jodorowsky, e seu livro “El Tarot, ¿Por qué?, ¿Cómo? ¿Hasta dónde?”.

Na linguagem dos pássaros, há um convite para que o(a) cartomante (ou oraculista) vá além das molduras dentro dos Arcanos/imagens. Em uma leitura, por exemplo, em que haja uma Rainha de Espadas e, do lado, um Ás de Espadas, poderia significar que a Rainha entrega a sua coroa para a espada, percebendo que o poder não vem dela, mas de seu instrumento. Uma flor pode se transformar em um Arcano Maior, etc, as possibilidades são muitas. Este tipo de leitura não é exclusivo da Linguagem dos Pássaros, visto que é um pensamento que tem como base a cartomancia clássica. A própria teoria dos encontros, sobre a qual falo muito em meus cursos, é um tanto quanto similar. Olhar para as posições dos Arcanos, o que as cartas fazem, etc, é extremamente importante. O grande problema, em Jodorowsky, para mim, é quando a leitura mais poética quebra determinadas tradições e, até mesmo, raciocínios.

Além da problemática histórica encontrada no livro, há uma extrapolação da leitura imagética, em minha opinião. Liberdade de leitura é importante, mas eu sou o tipo de tarólogo que possui uma visão bem clara: liberdade nenhuma, recurso linguístico-interpretativo nenhum, deve ir além do que a carta diz. Quando se estuda o simbolismo dos Arcanos, algumas mensagens ficam bem claras. A Torre nunca foi um arcano que mostrasse situações felizes, então, no momento em que há alguém dizendo que ela pode significar prosperidade, há uma quebra para além da carta. Isso também pode levar a leitura para um espaço além de um Arcano, e pode acontecer alguma leitura onde os limites chegam na próxima carta: como por exemplo uma pessoa que começa a ler o Mago e acaba falando em reflexão e silêncio, atributos clássicos da Papisa. 
Não são poucas as vezes em que Jodorowsky quebra com a tradição simbólica, e não, não estou falando de um jeito inovador e que traga uma brisa fresca para o mundo interpretativo, mas sim de uma quebra de determinados padrões de forma, ao meu ver, agressiva. Muita poética, pouca interpretação tarológica. Para Jodorowksy, por exemplo, as figuras que caem da Torre são, na realidade, os diabretes contidos no Arcano XV, o Diabo, que, agora, realizaram sua ascensão, e estão voando em alegria. Jodorowsky chega a dizer que na Torre não há destruição, mas sim uma transformação espiritual. Muito da visão de Jodorowsky sobre o Tarô está ligado à Psicomagia, método criado por ele, o que acaba misturando muita coisa. Em um livro que propõe uma restauração de um Marselha original, ter uma leitura que se baseie tanto em um próprio método me soa um tanto quanto estranho.

Dito isso, não é um livro que eu descarte. Muitas passagens são boas, mas é preciso ter um filtro muito grande, uma carga de leitura tarológica consistente, para que se saiba o que extrair. Enquanto leitura iniciante, eu não recomendo, visto que a pessoa que nunca leu nada sobre Tarô tende a fixar na mente a primeira impressão, e eu não acho que as inconsistências históricas e simbólicas propostas pelo autor sejam as mais ideias.

Julio Soares