Escolhas e Perdas – A relação entre o Diabo e os Enamorados na Teoria Ternária

Diabo e Enamorados na Teoria Ternária – escolhas e perdas.

Um dos textos teóricos que mais fundamentou meus estudos de tradução na faculdade de letras foi o “perdas e ganhos”, do livro “Quase a Mesma Coisa”, de Umberto Eco, obra essencial para praticantes e estudantes da arte da tradução. A base do texto é simples: no momento em que traduzimos, perdemos algo – mas ganhamos também. Perderemos a sensação do idioma original, as referências culturais e linguísticas especificas, mas ganharemos novas leituras, novos olhares. “Traduzir é o verdadeiro modo de ler um texto”, já disse Calvino. Diante dos Enamorados, lidamos com isso. Acho que o encontro com a beleza envolve o contraste eterno com a feiura. A beleza fere, inflama nossos corpos, abre feridas. A partir do contato com a beleza, percebemos onde há a sua falta. Os opostos se atraem, dizem. Acho que não é bem uma questão de atração, mas de convivência. Os opostos convivem, estão sempre lado a lado, juntos, eternamente. Vício e virtude, paz e guerra, os Enamorados surgem para mostrar a dicotomia do dito belo, puro.
Para que eu perceba o amor – significado mais primário deste arcano – preciso olhar tudo aquilo que não é amor. Aí entra o Diabo em cena, a contrapartida dos Enamorados pela teoria ternária. 15 = 1 + 5 = 6. O Diabo mostra aos Enamorados tudo aquilo que não é amor, mas sim posse, ciúmes, obsessão e apego. Diante da tranquilidade, percebemos o caos. Não é os Enamorados em si um arcano que fala sobre a angústia da escolha ou o impasse eterno – ora, historicamente este arcano sempre esteve ligado à ideia de escolha certa, da escolha tranquila – daquela que segue em comunhão com o Destino. Quando temos dificuldades em fazer escolhas, quando tudo vira um impasse, não estamos tanto no domínio dos Enamorados. Os Enamorados é um arcano de funcionamento simples – a escolha correta é aquela mais ligada ao Destino, ao coração. Escolher o próprio Destino, seguir o próprio ritmo e natureza, esse é o segredo. Quando estamos interpretando tudo como um grande impasse, quando não conseguimos lidar com a perda natural de toda e qualquer escolha, quando queremos andar para a esquerda e a direita ao mesmo tempo, estamos sob a sombra do Diabo. O Arcano XV é o intranquilo, é aquele que não consegue aproveitar toda a beleza e todo amor. Diante dos Enamorados, percebemos o amor a partir da falta dele, percebemos o que somos a partir do que não somos, e aí temos o aprendizado necessário para seguirmos em nossas escolhas. Quando no Diabo, porém, nos apegamos às coisas que não somos, nos apegamos aos exageros e angústias, ao tormento.

O Diabo diz aos Enamorados que escolher é um ato de dor. Diante da tradução, uma palavra errada pode custar valores elevadíssimos, pode custar o entendimento de um termo de compromisso ou mesmo a experiência de determinada sensação passada pelo texto. A escolha do tradutor vale muito, pode causar até guerras. Porém escolher é necessário, e perder é necessário. A cada arcano que puxamos, existem 77 que não estarão naquela posição especifica. Para cada Destino lido, existem 77 Destinos ocultos. É preciso escolher uma carta, senão não há jogo. O Diabo não entende isso. Ele quer abrir todos os Arcanos, quer escolher todas as palavras – e, como tal coisa nem sempre – quase nunca – é possível, ele recolhe-se em angústia. Eis o apego, o tormento. O tormento do Diabo está presente no “pode ser”, nas entrelinhas jamais reveladas, nas sombras eternas. Não é como o silêncio da Papisa, que encontra uma sacralidade, o Diabo detesta o silêncio, e está preso eternamente entre a vontade de revelar todas as palavras do mundo e a consciência de que algumas coisas anulam outras, de que alguma escolhas impedem outros caminhos. Não é à toa que, após o Diabo, há a Torre: quando não escolhemos, quando ficamos presos em angústia e em potencialidades, a vida escolhe por nós. O tempo passa, as oportunidades vão embora. O Diabo sofre por amor, por se sentir impuro diante dele, por não conseguir vivenciar as coisas sem se apegar, sem pensar em todas as coisas que não vive. Quando diante do amor, o seu foco volta para tudo aquilo que não é amor, e aí há o sofrimento. É no Diabo que reside um certo vicio em se sentir tudo que pode ser sentido, de uma vez, sem organização e sem sentido. É o medo de não sentir nunca mais, por isso sente-se tudo que será possível sentir, mesmo que isso cause sofrimento e confusão.
Mas os Enamorados ensinam ao Diabo que, uma vez que estamos realmente em conexão conosco, em sintonia com nossa natureza mais intrínseca, as escolhas não precisam ser dolorosas. Quando estamos em paz com nossa existência, percebemos que parte muito importante do nosso Destino é que não somos ninguém além de nós mesmos. Logo, não faria sentido fazer escolhas que não estejam em sintonia com a nossa natureza, não entramos na angústia de querer ser tudo – podemos ser tudo aquilo que está em nosso Destino – em toda a amplitude que ele nos permite. Livre-arbítrio nada mais é do que perceber o jogo de escolhas que temos diante de todas as limitações de nossa vida. Eu posso fazer escolhas de acordo com minha existência – e isso é também um fator político, social, religioso, geográfico, racial, de gênero, não esqueçamos.

A pergunta que mais me fazem quando ensino a carta dos Enamorado é: então qual é a escolha certa? Eu sempre lembro que a ideia de uma escolha correta está sempre atrelada a fatores contextuais. Para a igreja católica do século XIV, o amor era um instinto que deveria ser corrigido através do casamento – esta era a escolha certa. O ideal da humanidade era a aproximação de Deus, logo a escolha certa era aquela que nos levasse para o paraíso. No romantismo, o novo ideal torna-se o amor. Hoje? Não sei. Para mim, a escolha certa é aquela que nos aproxima de nossa própria essência. A minha essência, o meu Destino, não é necessariamente o mesmo que o seu. Temos, enquanto humanidade, um Destino comum: a mortalidade. A nível individual vai de cada vida, cada história. O que eu sei é que muito se confunde Diabo com Enamorados, bem aos moldes da teoria ternária. Apego vira sinônimo de amor, sofrer por algo se torna indício de que nos importamos, e parece que só somos dignos de determinadas coisas quando damos o sangue por elas, quando tudo torna-se peso e angústia. Escolher tornou-se o maior pesadelo, especialmente diante de um mundo que, por muitos anos, teve um discurso de que podemos escolher absolutamente tudo, de que somos totalmente livres, mas cuja realidade foge deste discurso.

Quando diante dos Enamorados, entendemos a beleza e a feiura e conseguimos nos enveredar por esses reinos com uma certa tranquilidade. Se eu sorrio hoje, sei que hei de chorar um dia, e assim vai indo. Se eu não vivencio algo, é porque estou vivenciando outra coisa, e isso é tranquilizante.

(TRADUÇÃO) Prefácio de Roger Caillois ao livro “Le Tarot des imagiers du Moyen Âge”

Roger Caillois foi um sociólogo e antropólogo francês muito conhecido pelo seu estudo a respeito da teoria dos jogos. O livro “Os jogos e os homens: a máscara e a vertigem” é um tratado sobre a própria sociedade humana a partir dos jogos produzidos por ela e os efeitos que eles causam na nossa natureza, sendo um clássico dentro de diversos estudos, ganhando muito destaque nos estudos pedagógicos.

Ele foi o responsável pelo prefácio do livro “Le Tarot des imagiers du Moyen Âge”, de Oswald Wirth, considerado o primeiro livro moderno de tarô e a minha base teórica mais forte dentro da prática oracular. Por isso, resolvi resgatar um pouco das minhas raízes acadêmicas (sou da área de letras – tradução do italiano) e traduzir, a partir da versão italiana e do original em francês, este texto, visto que, mesmo sendo apenas um prefácio, tem algumas considerações extremamente pertinentes para a prática oracular. Abaixo segue o texto.

O fato de que um jogo seja usado para divinação é quase que uma contradição de termos.  Todo jogo, e, acima de tudo, um jogo de cartas, apresenta-se, necessariamente, como uma totalidade: uma série de elementos constantes aos quais não pode-se acrescentar ou retirar nada, e que não é possível modificar. Um jogo, isto é, a soma dos dados a serem manipulados, deve ser fixo e completo, do contrário, o jogo, ou seja, o complexo de operações que dizem respeito aos dados, é falho desde seu início. Na via contrária, toda forma de divinação conduz a um campo ilimitado, porque compreende os acontecimentos possíveis que são de número infinito, e que se bifurcam de modo imprevisível (ou também previsível, o que, na prática, é a mesma coisa, se a certeza mantém-se excluída) a cada instante.  A este infinito normalmente corresponde um outro infinito, sobre o qual o adivinho baseia o seu oráculo: as formas do chumbo, os reflexos que passam pela bola de cristal, as vísceras das vítimas ou a fumaça do incenso, o óleo versado sobre a água ou as manchas de tinta, os sonhos, os desenhos formados na borra do café.  Em todos estes casos não há nada que se repita, nenhuma circunstância em que ocorrem os mesmos acontecimentos, as mesmas desgraças, as mesmas fortunas, nunca nada é absolutamente igual.  A originalidade, a vantagem e ao mesmo tempo o paradoxo da aplicação de um jogo de cartas na adivinhação consistem no fato de que o ilimitado, os casos possíveis, dependem da presença visível e das combinações limitadas de um número pequeno de símbolos tradicionais, cujos significados estão contidos em léxicos muito difundidos. Naturalmente, o adivinho reivindica os direitos da clarividência, e nunca esquece de afirmar que esta é, de fato, o essencial. Isso não impede que, para os consulentes, as cartas constituam uma garantia: permitem um controle sobre a sentença enigmática da sorte, pois são tiradas do baralho pelas suas próprias mãos.  Ao profeta espera-se somente que as interprete, de acordo com um código tão creditado que o próprio profeta começa a explicar os motivos de seu desacordo quando se afasta das regras universais. Esta restrição dupla resulta, para ele, em um benefício. O intérprete, de fato, diante de uma infinidade de símbolos diversos, encontra-se mais confuso do que auxiliado.  Ele deve reduzir (como expliquei a respeito da oniromancia) a sua multiplicidade a um pequeno número de acontecimentos que ocorrem mais ou menos a todos:  um encontro, uma viagem, um amor, uma traição, uma doença, o fracasso ou o sucesso, a riqueza ou a ruína, a morte inevitável. A ciência da divinação, afirmava, é obrigada a passar por essa porta estreitíssima, a reconduzir os inumeráveis dados a uma dezena de eventos que o homem encontra quase que necessariamente no curso da sua breve vida.  Logo, o fato de que o repertório dos signos seja restrito não é, de forma alguma, negativo. É importante, porém, que tais signos possam combinar-se de diversas maneiras, como os planetas e as casas mundanas no firmamento imutável, como as cartas sobre a mesa da pítia. Somente as totalidades podem conter o infinito que são as condições humanas. Os planetas, que são sete ou nove, os doze signos do zodíaco, os trinta e dois ou setenta e oito (ou até mesmo o número que se prefira, desde que ele expresse um conjunto fechado) retângulos coloridos constituem totalidades que resumem e contém o universo. Não se produz e nem se produzirá nada que já não seja reflexo de outra configuração de astros inflexíveis, longínquos e eternos, ou da disposição de alguns símbolos escolhidos e ordenados, pelas faces mudas, dispostos por uma mão cega que, sob a aparência do acaso, é guiada pela Sorte irrefutável. Uma hipótese extravagante, e por ser extravagante, inegável. Ato de fé no improvável por excelência, desafia qualquer argumento: afirma que todo aspecto de uma determinada possibilidade corresponde a um estado preciso que existe no passado, no presente ou no futuro de um outro complexo misteriosamente ligado ao primeiro. Para passar de um sistema a outro, é necessário conhecer, isto é, inventar, as correlações necessárias.  Mas falemos sobre os jogos de cartas: na China, um texto lamentavelmente tardio e sem autoridade diz que, por volta de 1120, um funcionário da corte doou trinta e duas placas de marfim. Algumas destas faziam referência ao céu, outras à Terra, algumas então ao homem, e a maioria falava de noções abstratas como a sorte e os deveres do cidadão.  O soberano teria ordenado que fossem reproduzidas e difundidas por todo o seu reino. O jogo, chamado “Mil vezes Dez Mil”[1], se é que existiu, contava somente com trinta cartas: três séries de nove cartas cada e três trunfos, que são as cartas chamadas, respectivamente, “mil vezes dez mil”, “a flor branca” e “a flor vermelha”. Quatro sinais vermelhos estão desenhados nas cartas cósmicas, correspondendo aos pontos cardinais. Nas cartas humanas, dezesseis símbolos correspondem às virtudes, também chamadas, por analogia, de cardinais (benevolência, justiça, ordem e sabedoria), cada uma das quais é expressa quatro vezes. A soma dos símbolos do jogo resume o número de estrelas.

Desta maneira, este jogo é um microcosmo, um alfabeto de emblemas que contempla o universo inteiro. Esta tendência enciclopédica não era menos presente nos jogos indianos, tão sistemáticos, ainda que rigorosamente mais ligados à teologia. No final do século XVI, mais ou menos cinquenta anos após a referência aos jogos enviada por Baber ao Xá Hassan, Abul Falz Allami descreve um jogo de 144 cartas, com doze séries de doze cartas. Abkar as reduz a 96, com oito séries. Geralmente admite-se que o jogo de 96 cartas é uma adaptação islâmica de um jogo indiano de 120 cartas, dividido em dez séries de doze cartas, correspondentes às dez encarnações ou avatares de Vishnu e ilustradas com os seus símbolos. Este jogo é chamado de Dasavatara, e é jogado na Índia até hoje. Cada série tem duas figuras: o rei e o vizir, e dez cartas numeradas de um a dez. Nas cinco primeiras séries, a ordem das cartas é ascendente, de um a dez, sendo a um a com menos valor. Nas outras cinco, a ordem está invertida, e o um vira a carta mais alta. Geralmente, a carta mais forte do jogo é aquela que representa a encarnação do deus como Rama ou Narasimba. Após o pôr-do-sol, a mais forte é, por sua vez, aquela que tem a figura de Krishna, ao menos enquanto esta carta existe no jogo.  As cartas numeradas contém o emblema do avatar que dá o nome à série, repetido quantas vezes exija o seu valor. Em geral, os emblemas são: peixes, tartarugas, conchas, discos, ou seja moedas, flores-de-lótus, ânforas, que podem corresponder às copas, machados, arcos, bastões e sabres. Existem também elefantes, macacos, vacas, cavalos, leões, nagas ou mulheres. Alguns baralhos apresentam cenas contendo de um a dez personagens, de acordo com o valor da carta: um fumante solitário, dois homens discutindo, uma dama e sua criada visitando um sadhu, dois homens fazendo um truque com uma corda enquanto outros dois os assistem, uma menina dançando na frente do rei de três cortesãs, etc.  Os primeiros baralhos de cartas conhecidos no Ocidente estão mais próximos à simbologia chinesa, racional e cívica, do que da luxuosa mitologia indiana. Os Naibi, cartas conhecidas na Itália no século XIV, são uma espécie de instrumento mnemônico de conhecimentos úteis. São cinquenta imagens[2], distribuídas em cinco séries de dez cartas. As séries correspondem às condições da vida, às Musas, às Ciências, às Virtudes e, por fim, aos planetas. As condições da vida vão da mais humilde ao poder social e espiritual supremo: o mendigo, o servo, o artesão, o mercador, o cavalheiro, o erudito, o rei, e, por fim, o imperador e o papa. Para completar a segunda série, Apollo foi adicionado às nove Musas. Junto às cartas que representam os sete planetas, foram adicionadas a oitava esfera, o “Primo Mobile” e “Causa Primeira”. Em relação às ciências e às virtudes, não faltavam opções. Era um jogo didático. O Tarô provavelmente nasceu da combinação dos Naibi com as cartas numeradas: estas últimas, que vão do ás ao 10, compreendem quatro séries que são encontradas nas cartas espanholas: copas, espadas, moedas e bastões. Estes símbolos aludem, respectivamente, ao clero (as copas representam o cálice), à nobreza, aos comerciantes e aos camponeses. Um tratado veneziano de 1545 propõe outra explicação: “As espadam lembram a morte daqueles que se deixam arruinar pelo jogo; os bastões mostram a punição merecida por quem trapaceia; as moedas representam o que alimenta o jogo; e, por fim, as copas, a bebida onde as disputas entre os jogadores são apaziguadas”.  Os Naibi parecem ter fornecido os arcanos maiores, com 21 cartas, sem o Louco, que não é numerado.  As 78 cartas do Tarô são, até então, o instrumento preferido e mais prestigiado das cartomantes.[3]

Pode-se usar somente os Arcanos Maiores ou o baralho inteiro, de acordo com o método escolhido. Geralmente, a cartomante dispõe os vinte e dois Arcanos Maiores na frente do cliente, com a face para baixo, e pede para que doze cartas sejam escolhidas, dispondo-as, em ordem, em doze posições, chamadas de “casas”. Depois, mistura as cartas que sobraram às outras do baralho e recomeça a operação. Dessa forma, cada casa terá duas cartas. A primeira revela o princípio que domina a casa, e a segunda as reações eventuais e os acontecimentos futuros. As doze casas são, respectivamente, o domicílio da vida, dos bens, do parentesco, da herança paterna, dos filhos, da servidão (isto é, os servos e os animais domésticos não cavalgáveis), do cônjuge, da morte, da religião, das honras, dos amigos e das aflições, Além disso, cada uma delas corresponde a uma parte do corpo. Este complexo engloba tudo aquilo que pode acontecer no curso da existência. A origem astrológica desta disposição é evidente. As doze casas são modeladas sob a influência zodiacal.

As cartas, sobretudo as que compõem os Arcanos Maiores, viraram objeto das exegeses mais diversas e sutis. Os naipes das cartas numeradas são semelhantes aos quatro elementos: as espadas ao ar (visto que a espada rodopia no ar), os bastões ao fogo (são feitos de lenha, que é inflamável), as copas à água (elas contém os líquidos), as moedas à terra (pois são feitas dos metais que ela produz) Além disso, as espadas também simbolizam a vontade e a potência; os bastões, o trabalho e os deveres cívicos, a energia material e a fecundidade;  as copas, o amor e o misticismo, a elaboração mística das riquezas espirituais; as moedas, os conhecimentos, a arte e toda atividade criativa que regula o mundo externo. Poder-se-ia enumerar os significados atribuídos aos Arcanos Maiores para sempre. Não existe ciência conjectural ou doutrina esotérica (astrologia, aritmosofia, alquimia, etc) que não tenha sido utilizada para esclarecer o mistério, ou para adensá-lo. Rios de tinta foram derramados para falar sobre os Arcanos Maiores. Quis-se descobrir uma linguagem hierográfica universal. Court de Gebelin decifrou os tesouros da sabedoria tradicional. A Egiptomania da primeira metade do século XIX pretendia identificar estes símbolos recorrendo ao Zodíaco de Dendera. Os ocultistas modernos como Eliphas Lévi, Papus, Stanislas de Guaita e, por fim, Oswald Wirth, interpretaram cada detalhe e cada cor de cada detalhe. Tudo possui um significado arcano (N.d.T: secreto) e iniciático. Na realidade, parece se tratar de um conjunto compósito, no qual há imagens de origem bíblica (o anjo, ou o Juízo Final, a Torre, que é muito semelhante à Torre de Babel, o Diabo), as virtudes advogadas pela igreja (a Justiça, a Força, a Temperança), certos astros acompanhados pelos signos do Zodíaco (a Lua com o caranguejo do signo de câncer, o Sol com os gêmeos, a Estrela acima do signo de Aquário), as duas grandes potências da época: o Papa e o Imperador, com a águia imperial ou a tiara, cada um deles acompanhado de uma esposa, seja por fantasia, por irreverência ou por necessidade simétrica. No Arcano do Mundo, reconhecem-se os símbolos dos quatro Evangelistas. As alegorias do Amor e da Morte são clássicas. O Pendurado e a Roda da Fortuna são frequentemente encontrados na iconografia medieval. O Eremita, com sua lanterna, relembra sem sombra de dúvidas Diógenes. Reconheceria de bom grado Alexandre no homem triunfante, coroado e revestido de armadura que guia o Carro. Alexandre era muito popular naquela época. Junto a Diógenes, forma uma dupla lendária, a partir da contrapõem-se a pobreza arrogante e a grandeza terrena. A primeira carta, o Pelotiqueiro[4], que lembra o famoso quadro “le bateleur”, de Bosch, também pertence ao repertório de alegorias daquele tempo. É a carta que comanda o jogo inteiro: sobre a sua mesa, estão dispostos os objetos que retirou de sua trouxa, e, junto do bastão que empunha, eles nos lembram os naipes das cartas numeradas. Ao centro da mesa, há dados, para que, nem quem consulta e nem quem busca a leitura, se esqueçam que a distribuição das cartas depende da Sorte. O último arcano, o Louco, uma espécie de vagabundo com um gatinho em seus calcanhares, foi comparado frequentemente com outro quadro de Bosch: o hobo. Esta carta não faz parte da série dos Arcanos Maiores. É uma carta livre, também vagabunda, polivalente. Era possível que fosse adicionada a qualquer combinação desejada, tal como o Coringa, uma última concessão ou coroação do triunfo, um acaso dentro do acaso, uma incógnita subsidiária que corrige aquela já conhecida.

O número de arcanos varia de acordo com o baralho. Um antigo baralho florentino possuía trinta e cinco cartas numeradas e seis fora de série.[5] Podem ser reconhecidas as três virtudes teologais, os quatro elementos, os doze signos do zodíaco, etc. Em resumo, qualquer que seja o número e a disposição, a série dos símbolos é constituída com a ajuda de imagens extensamente comunicativas. Os símbolos são de origem indiferentemente laica ou eclesiástica, pagã ou cristã, culta ou popular. O essencial parece ser obter uma “totalidade” que contenha o universo. A “totalidade” representada pelas cartas interfere, no momento da tiragem, na “totalidade” representada pelas casas. Todas as combinações são possíveis, e não existe nenhum acontecimento concebível que não entre nesta rede dupla.  É um teclado infinito. O veredito, além disso, como já disse, está ali, verificável, legível, sem nenhuma obscuridade, paciente. Claro, aquele interessado não possui os dons, e talvez nem mesmo o saber que permitiria que o veredito seja interpretado com eficácia. Todavia, ele conhece o princípio, identifica os símbolos. Se necessário, retifica a hipótese incorreta do intérprete: o reconduz a uma estrada segura e, deste modo, participa da leitura envolvente do próprio destino. Acredito que seja este o porquê da preferência duradoura que se têm pelo Tarô e pela cartomancia em geral. As cartas constituem uma língua misteriosa, mas com um vocabulário rigoroso e com uma sintaxe exigente. O próprio consultante extrai, sob a forma de imagens precisas, os elementos que o dizem respeito e, então segue o discurso do Mestre, que adapta o significado geral ao caso particular. O adivinho não é mais como um mago que profetiza, ou, quem sabe, inventa, partindo de formas mutáveis na fumaça, dos reflexos indecisos e quase imperceptíveis, da confirmação do metal resfriado: estas formas instáveis, nunca idênticas a si mesmas, deixam aberta a porta da incerteza, do engano e do erro. Aqui, o léxico é estabelecido de uma vez por todas. Os hieróglifos são imutáveis e de número limitado. A sorte não intervém em nada além de indicar quais destes contém o porvir do consultante. Resta somente a decifração: e tal coisa parece um ato de ciência ou de perspicácia. Da mesma forma, o médico constrói o diagnóstico interpretando os sintomas que já sabe identificar. Oswald Wirth conclui a sua introdução ao estudo do Tarô com estas palavras: “O jogo é um exercício. O jogo do espírito desenvolve faculdades precisas. Sirvam-se dos 22 arcanos do Tarô para jogar adivinhação.” e recomenda este jogo sobre um jogo como uma excelente forma de imaginar com justeza. Me perguntava frequentemente, muito antes de conhecer este conselho, o que poderia ser a imaginação justa: é reunir, até onde seja possível, as condições da conjectura fortuita.

Roger Caillois


[1] N.d.T: Talvez o jogo ao qual Caillois esteja se referindo seja uma variante do “Khanhoo”, um dos jogos de cartas chineses pertencente à mesma família do Mahjong, ou mesmo ao Madiao, outro jogo de cartas chinês. No baralho Madiao, há uma carta chamada “miríada”, que significa o numeral “dez mil”. Este baralho era usado no jogo de Khanhoo.

[2] N.d.T: aqui, Caillois refere-se o baralho dito “Mantegna”. Trata-se de uma confusão: Naibi é o nome que se dá a um jogo de cartas recém chegado na Europa, de origem árabe, provavelmente na Itália. O baralho dito Mantegna é uma produção italiana, muito provavelmente da escola de Ferrara.

[3] N.d.T: fala-se “das” cartomantes pois, na época da escrita deste texto, era muito mais comum que a imagem da cartomancia fosse ligada às mulheres, coisa que reforçou a marginalização desta prática.

[4] N.d.T: Apesar do nome Mago ser utilizado na língua portuguesa, “prestigiador”, “mágico” ou “pelotiqueiro” é tradução mais apropriada de Bateleur, do nome da carta nos baralhos tradicionais.

[5] N.d.T: provavelmente o autor refere-se ao Minchiate, um tipo de baralho popular encontrado em toda a Itália já a partir do século XV.

Recomendações de livros de Tarô

O mercado editorial está sempre produzindo. Nunca se viram tantos baralhos e livros de tarô em produção como atualmente. Tarô para iniciantes, tarô e psicologia, tarô e cabala, tarô e magia, tarô e amor. Para quem está começando, é fácil se sentir seduzido(a/e) por tanta oferta. Mas é importante ressaltar que quantidade de produção e qualidade não são a mesma coisa.

Faço essa lista pensando em livros que considero importantes para o desenvolvimento de alguém dentro da cartomancia. Além disso, colocarei algumas notas sobre o que poderíamos considerar um “nível” de leitura. Porém, digo o seguinte: por mais que uma leitura seja recomendada para níveis iniciantes, o(a) bom leitor(a/e) está sempre desconfiado(a/e). Ler livros como se fossem manuais rígidos e únicos pode ser problemático, e o mesmo ocorre com listas de indicação. Uma lista de indicação nunca é fixa, pois mesmo eu leio sempre cada vez mais. Tenham isso em mente. Precisamos ler muito, muito mesmo. Cartomantes precisam de bibliotecas, precisam comparar leituras, reavaliar ideias. Com o tempo, vemos que, por exemplo, repetições de propostas semelhantes criam padrões de qualidade. Se todos os livros dizem que arcano x significa uma coisa, e livro y diz algo contrário sem alguma justificativa bem defendida, temos um motivo para desconfiar de livro y.

Não me limitarei a livros em português, assim como muitos dos títulos só podem ser encontrados em sebos. Infelizmente, o mercado editorial tarológico é um tanto quanto fraco nos dias atuais. Além disso, indicarei principalmente títulos relacionados ao Tarô de Marselha, sendo este o tarô mais indicado para iniciantes. Aqueles que têm outros tarôs em suas páginas geralmente os usam como exemplo, mas não necessariamente como foco de estudo.

Por último: essa lista poderia ser infinita. Há muitos mais livros que eu poderia recomendar, mas vou tentar manter as coisas da forma mais coerente possível com a realidade de quem está começando seus estudos. Livros mais específicos ou avançados ficarão para outras listas ou resenhas.

“O Tarô ou a Máquina de Imaginar”, Alberto Cousté.

O livro de Cousté, traduzido pela poeta Ana Cristina César e publicado em 1977 no Brasil é um dos clássicos mais importantes em território nacional. Cousté compila as visões sobre o tarô de autores importantíssimos como Oswald Wirth, Paul Marteau e Eliphas Lévi. A parte histórica fica por Gérard Van Rijneberk, do livro “Le Tarot, Histoire, Iconographie, Esotérisme”, que, por mais que seja um clássico essencial, tem certos dados já defasados.

Na minha opinião, a obra de Cousté se destaca por dois pontos: é o primeiro livro em português a trazer as ideias de Oswald Wirth, meu teórico do tarô favorito. Cousté fala a respeito das teorias binária, setenária e ternária, essenciais na obra de Wirth. Além disso, há a parte poética, a visão do tarô como uma verdadeira máquina de imaginar, cujas combinações infinitas se aproximam do fazer literário. A parte dois, chamada de “ofício do adivinho”, contém um dos textos mais bonitos e essenciais sobre o fazer cartomântico que já conheci.

Recomendo para iniciantes? Sim. É importante dizer, porém, que isso não indica que a leitura é “fácil” ou “difícil”. Os melhores livros são aqueles que a cada releitura têm algo novo a dizer, já diria Calvino. Eu releio o Cousté sempre que possível. Algumas coisas ficam mais claras com o tempo – especialmente depois que lemos as obras que ele cita como fonte para a sua escrita.

Você pode baixar o PDF dele aqui.

Trilogia de Estudos Completos do Tarô e Curso Completo de Tarô, Nei Naiff

É impossível falar de tarô no Brasil sem citar Nei Naiff. A obra dele foi a minha porta de entrada na área, então tenho um lugar especial pra ele no meu coração. A trilogia de estudos completos do tarô é, possivelmente, o guia de tarô mais sofisticado e didático do mundo. Nei Naiff compila, ao longo dos três títulos, “Simbologia e Ocultismo”, “Vida e Destino” e “Oráculo e Métodos”, todo o conhecimento que acumulou em sua carreira como tarólogo e professor de tarô. Eu considero essa a primeira leitura essencial, visto que a trilogia dá o chão firme o qual precisamos no início de nossos estudos.

Inclusive, uma dica: leia um livro de cada vez, sempre. Ler dez livros de tarô (ou qualquer outra área) ao mesmo tempo é a receita perfeita da bomba atômica. As ideias se confundem e se contradizem, e, por não saber muito sobre a visão e linha teórica de nenhum dos autores lidos, a tendência é o surto mesmo. Vai com calma.

O Curso Completo de Tarot foi o meu primeiro livro. É como um resumo da trilogia, com direito a exercícios práticos. É o melhor livro para começar a entender o pensamento de Nei e uma ótima introdução para a trilogia de estudos completos.

Além disso, temos um lado extremamente positivo: a obra de Nei Naiff é reeditada sempre, sendo extremamente fácil de encontrar. A editora Alfabeto, que publica os livros dele atualmente, está sempre com descontos gigantescos pra compra desses livros no site deles. Recomendo de olhos fechados.

Recomendo para iniciantes? Sim.

O Tarô de Marselha Revelado, Yoav Ben-Dov

Ben-Dov traz uma literatura de escola francesa um tanto quanto refrescante, trazendo novas ponderações para pensamentos iniciados em Tchalai Ünger e Paul Marteau, com uma visão objetiva sobre os arcanos. É uma leitura muito gostosa. Mesmo tendo sido aluno de Jodorowsky, autor que me causa certo desconforto, a sua visão se afasta de maneira bastante coerente com a de seu professor, criando uma obra muito coesa.

Recomendo para iniciantes? Sim.

The Tarot – History, Symbolism and Divination, Robert Place.

Neste livro, Robert Place traz uma abordagem histórica maravilhosa, que acompanha quem o lê de forma gentil pelo significado dos Arcanos.

Recomendo para iniciantes? Sim.

Tarô: dicionário e compêndio. Jana Riley

Dicionários importam. Engana-se quem acha que só existe dicionário de idiomas: essa classe de livros se abrange a todas as áreas, e não seria diferente com o tarô. A obra de Riley compila diversos autores essenciais para o Tarot. O único problema nesse livro é que as definições dos arcanos são cortadas de seu livro original e colocadas no livro em comparação com outros de maneira um tanto quanto aleatória. Me explico: antes de um(a) autor(a) fazer sentido em relação à outra obra, deve ter sentido dentro de sua própria criação. Dessa maneira, ao retirar uma definição e colocá-la em uma página em branco sem contextualização pode ser um pouco complicado. No caso de Riley, por exemplo, vê-se autores de escola francesa e inglesa misturados, o que pode fazer com que quem esteja lendo tenha problemas na compreensão.

Recomendo para iniciantes? Sim, mas com cautela. Não é uma primeira leitura.

O Tarô de Marselha – tradição e simbolismo, Paul Marteau.

Paul Marteau é quem fundou o termo “tarô de Marselha”, dando início a uma nova onda de pensamento na literatura francesa sobre o Tarô. Um livro essencial a todo mundo que queira se aprofundar na cartomancia.

Recomendo para iniciantes? Sim.

Tarot Cards for Fun and Fortune Telling e Tarot Clássico, Stuart Kaplan.

Stuart Kaplan é um nome do qual não podemos fugir ao estudar o Tarô. O autor, que infelizmente faleceu no início de 2021, foi um dos nomes mais importantes para a evolução do Tarô no mundo. Ele foi, por exemplo, o responsável pela popularização do padrão Smith-Waite. Tarot Cards for Fun and Fortune Telling é o seu primeiro livro de tarô, trazendo informações precisas. As obras dele sempre dignificam a biblioteca da gente.

Recomendo para iniciantes? Sim.

Cartas e Destino, Hadés.

Este livro ganha destaque em dois pontos: ser um dos poucos que fala a respeito da teoria dos encontros, essencial para a leitura linear – e pelo foco no método da mandala astrológica. Uma leitura muito boa, se feita com cautela.

Recomendo para iniciantes? Não como primeira leitura. No meu instagram, há uma resenha mais completa dele no meu IGTV (e da maior parte dos livros citados aqui), recomendo que você assista.

Le Tarot des Imagiers du Moyen Âge, Oswald Wirth.

Wirth é meu teórico favorito em tarologia. Seu livro, lançado nos anos 20, é o primeiro livro moderno de tarô, a partir do qual o pensamento começa a se descolar do esoterismo tolo que vimos em muitas obras do século XIX. Foi o criador da teoria binária, que é a base de minha prática. É dele a frase “adivinhar é imaginar com justeza”, que, segundo minha opinião, é a gênese do fazer cartomântico.

Recomendo para iniciantes? Com mais cautela do que alguns livros. Requer algumas releituras. No clube de conteúdo exclusivo do Fortuna Arcana, fazemos a leitura comentada dele mensalmente.

Títulos para se aprofundar – aspectos específicos.

A partir daqui, recomendarei livros sobre assuntos mais definidos, tais como história do tarô, tarô e cabala, etc. Isso não indica que esses livros não são pensados para iniciantes, mas eles requerem uma leitura mais cautelosa.

Alquimia e Tarô, Robert M. Place.

Robert Place é um dos autores contemporâneos mais importantes nos estudos de tarô. Com linguagem objetiva, ele consegue escrever sobre o tarô a partir da alquimia sem fazer com que um conhecimento seja dependente do outro. Uma investigação histórica maravilhosa.

Recomendo para iniciantes? Sim, desde que saiba-se entender que tarô não é alquimia (ou mitologia, astrologia, cabala, etc), mas que são elementos que conversam entre si.

O Tarô: uma história crítica – dos primórdios medievais à experiência quântica, Cynthia Giles.

Mesmo com um título brega que olha (sério, precisava de algo além de “história crítica?”), este é um dos melhores livros sobre história do tarô que conheço. Conciso e intransigente, a visão de Giles é essencial para quem quer se aprofundar.

O Tarô Cabalístico, Robert Wang.

Considero a obra de Wang um ótimo ponto de entrada para o entendimento da lógica da escola inglesa. A partir desse livro, o pensamento de Waite, Crowley e outros autores ligados à Golden Dawn fica muito mais claro. O destaque dele é justamente o fato de que a lógica por trás das associações que existem na escola inglesa é mostrada de forma objetiva e prática.

Recomendo para iniciantes? Só para quem já tem alguma base sólida.

La Storia dei Tarocchi, Giordano Berti.

A obra de Berti foi objeto do meu estágio em tradução do italiano na faculdade, onde traduzi algumas partes dele. Berti traz as informações históricas de maneira muito linear, conseguindo guiar a leitura de maneira fluida. Um dos meus favoritos.

Recomendo para iniciantes? Sim.

A Cultural History of Tarot – from Entertainment to Esotericism, Helen Farley.

Um dos melhores livros de história do tarô que conheço.

Recomendo para iniciantes? Sim.

The Encyclopedia of Tarot, Stuart Kaplan.

É impossível falar em história do Tarot sem citar os quatro livros escritos por Stuart Kaplan, que são referência absoluta no assunto. Se você encontrar qualquer um dos seus volumes em algum sebo, saiba que é uma preciosidade.

Recomendo para iniciantes? Sim.

Historia del Tarot, Isabelle Nadolny.

Gosto muito da Nadolny. Acredito que ela seja uma das poucas historiadoras do tarô que ainda consiga ter um efeito provocante no meio. Suas teorias costumam ser muito diferentes das propostas pela maior parte dos especialistas, trazendo possibilidade muito interessantes. Em uma conversa que tive com ela, ela me disse que esse livro vai chegar no Brasil ano que vem. Estou no aguardo.

Recomendo para iniciantes? Sim.

A Carta Testemunha – estudos de caso

A Carta Testemunha é uma carta que serve para representar a pessoa para quem a leitura está sendo feita. Encontramos, geralmente, duas práticas correntes, ao longo da história do tarô, com relação à ela:

  • A primeira diz respeito dos Arcanos da Corte: até meados do séc. XX, os Arcanos da Corte eram vistos quase que exclusivamente como pessoas. Dessa maneira, diante de uma Rainha, teríamos uma mulher madura; etc. Eu, pessoalmente, acho essa leitura um tanto quanto problemática. Em primeiro lugar, porque ficar limitando cartas à pessoas é uma forma de restringir o potencial simbólico do arcano. Em segundo, porque, geralmente, quando encontramos esse tipo de leitura sendo praticada, as pessoas que são vistas são brancas, cisgênero, etc, etc. O Tarô parte de um mundo eurocêntrico e cristão, com todas as suas limitações e preconceitos cristalizados nas suas imagens. Isso não quer dizer, porém, que devamos fazer as mesmas leituras que eram feitas séculos atrás. O Tarô permanece o mesmo do séc. XVII(no caso do Marselha), mas a nossa leitura está no séc. XXI. Da mesma maneira que conseguimos ver uma previsão a respeito de uma leitura de whatsapp, também conseguimos incluir outros corpos, outras existências.
  • Alguns baralhos escolhem arcanos específicos como Carta Testemunha: vemos o Mago e a Papisa cumprindo este papel no Gran Tarot Esoterico, de Luis Peña Longa; na Sibilla della Zingara, podemos ver as cartas Valete de Copas e Rainha de Copas como Testemunha. A mesma crítica acima vale para estes casos: costumava-se ver o Mago como Carta Testemunha caso o consulente fosse um homem e, caso fosse mulher, o Mago representaria o homem/parceiro dessa pessoa. Eu gosto do caso do baralho feito por Austin Osman Spare, que fez uma carta específica para servir como Carta Testemunha, a carta “inquirer”.
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Carta Testemunha do tarô de Austin Osman Spare.

Existem, ainda, métodos que possuem uma casa testemunha. Nessas tiragens, há uma casa específica que representa o(a) consulente. É o caso da casa 1 da Mandala Astrológica e da 7 da Cruz Celta. É importante entender que a Casa Testemunha não é a mesma coisa que o momento atual da pessoa, ela representa a própria pessoa. Às vezes somos representados pelo Sol mas estamos passando por uma Torre.

Prática com a Carta Testemunha

Em minhas leituras e aulas, dou um valor muito especial para a Carta Testemunha. Nas linhas a seguir, detalharei como costumo utilizar esta prática.

Minha leitura é composta de duas partes: a primeira é um jogo geral, com diversos aspectos da vida de meu/minha consulente. Para isso, uso o Tabuleiro, um método que já tem uma casa testemunha: a casa do Louco. Como o próprio método possui uma casa testemunha, não vejo a necessidade de tirar uma carta. Caso você use algum método que não tenha essa casa, eu aconselho que você tira uma carta antes de iniciar a leitura. A carta testemunha vale mais para quem o/a cartomante do que para seu/sua cliente. A partir dela, tiramos informações essenciais para o nosso jogo. Por exemplo, se a pessoa tem o Sol como Carta Testemunha, podemos saber que ela será bastante racional, um tanto quanto alegre (talvez um pouco arrogante) – sabendo isso, já “ajustamos” a forma como diremos as informações presentes no jogo. É diferente, por exemplo, se a pessoa é representada com a Lua: está confusa, talvez esconda informações, e chegar até ela pode ser mais difícil.

Qualquer carta pode servir de Testemunha. Como eu uso o Tabuleiro, que usa somente os Arcanos Maiores – então minha carta testemunha é sempre um Arcano Maior.

Um exemplo de Tabuleiro. A carta acima (a Roda da Fortuna) é a Carta Testemunha.

Exemplo de Leitura com a Roda da Fortuna como Carta Testemunha

A primeira coisa que penso é a respeito da natureza da própria Roda da Fortuna: incerta, inconstante. Conta muito com a própria sorte, um tanto quanto desapegada, etc. Após isso, começo a leitura normal. Digamos que, em uma leitura linear, apareça a seguinte configuração:

Considerando uma leitura na Escola Inglesa, na qual o 3 de espadas torna-se uma carta de dor, leria o seguinte: uma possibilidade de renovação emocional, quem sabe uma boa notícia ou mesmo um encontro amoroso chega até a pessoa para quem jogo mas ela própria, seja por inconstância, que por falta de atenção – transforma a situação em um motivo para dor e desespero.

Neste caso, a Roda da Fortuna não será, necessariamente, um fator externo, como seria em algum outro jogo, pois a pessoa para quem jogo é o próprio Arcano X!

Vamos a outro exemplo:

Desta vez, usarei o Mago como Carta Testemunha.

Nessa leitura, a pessoa para quem jogo pede análise a respeito de uma oportunidade que surgiu no emprego para mudança de cargo e a qual ela aceitou. Tirei três cartas, associando as casas da seguinte maneira, da esquerda para a direita: o que deve ser feito, o resultado iminente e o que bloqueia a situação.

O Mago é uma carta que fala, além da questão da vontade e ânimo, de uma superficialidade e imaturidade, uma certa imprudência. Diante deste jogo, temos uma Papisa em situação de conselho, que pede prudência, que a pessoa tenha mais experiência. Sabemos, contudo, diante do relato do/a cliente, que ela/e já aceitou o cargo, e não espanta que a própria carta testemunha esteja no local de bloqueio. O que impede futuros sucessos e êxitos é a própria imaturidade e fogo no rabo do/a consulente. O Oito de Paus, na Escola Inglesa, fala justamente em um processo que, por mais que não seja ruim em si, é um tanto quando atropelado, feito muito no improviso. Ou seja, não temos um jogo ruim, mas temos uma Papisa mal aproveitada.

O uso da Carta Testemunha me ajuda muito a dar uma camada a mais nas minhas leituras e aulas. Me diz o que achou nos comentários. 🙂

PS: se, no jogo, não sair a Carta Testemunha, segue a leitura normal. Não é sinal nenhum, necessariamente. 😉

Julio Soares

“O Caminho do Tarot”, de Alejandro Jodorowsky e Marianne Costa — uma resenha crítica.

(Texto originalmente publicado no instagram Fortuna Arcana)

Para que a minha leitura a respeito do livro “O Caminho do Tarot”, publicado no Brasil pelo selo Chave em 2016, seja compreendida, acho importante fazer alguma contextualização. Primeiramente, é necessário falar a respeito do Tarô de Marselha.

Jodorowsky defende que possui o propósito (e, segundo ele, possui o êxito) de “restaurar o Tarô de Marselha”. Contatado por Philippe Camoin, um descendente da família que produzia o baralho conhecido como “Nicolas Conver”, sendo o baralho Marselhês mais popular (e um dos mais produzidos pelas editoras brasileiras). De modo que é descrito como um tanto milagroso, Jodorowsky propôs a ele a reconstrução do Tarô de Marselha com base em baralhos pertencentes à família e também em pranchas de impressão. Jodorowsky possuía um baralho de Paul Marteau — um de seus mentores — , uma réplica do baralho Besançon, do século XIX, provavelmente publicado pela casa Grimaud. A crítica de Jodorowsky, tanto ao baralho de Nicolas Conver quanto ao Besançon, é que ambos são “cópias”, feitas em máquinas de impressão. A dita restauração do baralho tinha como objetivo chegar ao “Marselha original”.

O próprio autor escreve, na introdução: “depois de um ano de pesquisas, nós nos demos conta da imensidão da tarefa que ainda tínhamos pela frente. Não se tratava de trocar alguns detalhes, nem de clarear algumas poucas linhas, era necessário restaurar o Tarot inteiro, devolvendo-lhe suas cores originais, pintadas manualmente, e os desenhos que os sucessivos copistas acabaram apagando. […] Os exemplares do século XVIII são cópias dos anteriores, e portanto não podíamos aceitar que um Tarot do século XVIII fosse o original. Era bem possível que a versão de Nicolas Conver de 1760 contivesse erros e omissões. Se no início os desenhos eram pintados manualmente, o número de cores foi limitado quando as máquinas industriais apareceram nas gráficas do século XIX. […] Aqueles que não eram iniciados simplificaram ao máximo os símbolos e os que copiaram acrescentaram outros erros a esses erros.” 
A proposta de Jodorowsky me parece vir de um local onde há certa inconsistência a respeito da História do Tarô: há a suposição de um baralho original, feito por “iniciados”. É extremamente importante pensarmos que a história do Tarô não é tão linear, sendo que o que hoje conhecemos como “Tarô de Marselha” é, na realidade, um padrão imagético que tem suas origens em diversos baralhos criados na Lombardia, norte da Itália. Esse padrão passou por diversas transformações ao longo dos séculos XIV e XV, mudando cores e formatos a depender do autor e país onde era produzido, até chegar a uma consistência maior nos séculos XVI e XVII, quando realmente “nasce” o Tarô de Marselha. Este nascimento está muito ligado às tecnologias de xilogravura, litogravura e cinzel. Jodorowsky diz ter encontrado, no México, um “Tarô de Marselha completamente pintado à mão”, o que me faz pensar em duas questões: ou esta afirmação não é verdadeira, ou o baralho em posse do autor não é bem um Marselha, mas sim um de seus influenciadores. É importante ressaltar, por exemplo, a respeito das cores, que estas mudam de acordo com a tipologia do baralho (existem os Marselhas de tipo 1, os mais antigos; e os de tipo 2, dos quais entram o padrão Conver), e me surpreende que Jodorowsky não cite estas tipologias ou mesmo o baralho de Jean Noblet, o baralho de Marselha mais antigo do mundo. 
Além do mais, os baralhos de padrão Marselhês já nascem em um período em que a produção através de técnicas de impressão como cinzel, litogravura e xilogravura já eram bastante populares dentro da produção de cartas, o que me faz desconfiar bastante deste “baralho de Marselha pintado à mão”. Não existe um baralho Marselhês “original”, e muito menos um “puro, iniciático”, visto que, até o século XIX, os baralhos eram feitos quase que exclusivamente para fins lúdicos. Marselha é construção, herança de séculos de evolução iconográfica e histórica.

LINGUAGEM DOS PÁSSAROS

A chamada linguagem dos pássaros é uma forma de leitura constituída por um viés poético. O maior nome, atualmente, desta escola (por escola, digo uma grupo de pessoas com pensamentos semelhantes, não estou falando de institucionalizações de pensamento), é Enrique Enriquez, um poeta de Nova York. O autor Dale Pendell também escreveu sobre a linguagem dos pássaros no livro “The Language of the Birds: some notes on chance and divination”, de 2009. Uma leitura excepcional. Há, ainda, Tchalaï Unger, uma das mentoras de Jodorowsky, e seu livro “El Tarot, ¿Por qué?, ¿Cómo? ¿Hasta dónde?”.

Na linguagem dos pássaros, há um convite para que o(a) cartomante (ou oraculista) vá além das molduras dentro dos Arcanos/imagens. Em uma leitura, por exemplo, em que haja uma Rainha de Espadas e, do lado, um Ás de Espadas, poderia significar que a Rainha entrega a sua coroa para a espada, percebendo que o poder não vem dela, mas de seu instrumento. Uma flor pode se transformar em um Arcano Maior, etc, as possibilidades são muitas. Este tipo de leitura não é exclusivo da Linguagem dos Pássaros, visto que é um pensamento que tem como base a cartomancia clássica. A própria teoria dos encontros, sobre a qual falo muito em meus cursos, é um tanto quanto similar. Olhar para as posições dos Arcanos, o que as cartas fazem, etc, é extremamente importante. O grande problema, em Jodorowsky, para mim, é quando a leitura mais poética quebra determinadas tradições e, até mesmo, raciocínios.

Além da problemática histórica encontrada no livro, há uma extrapolação da leitura imagética, em minha opinião. Liberdade de leitura é importante, mas eu sou o tipo de tarólogo que possui uma visão bem clara: liberdade nenhuma, recurso linguístico-interpretativo nenhum, deve ir além do que a carta diz. Quando se estuda o simbolismo dos Arcanos, algumas mensagens ficam bem claras. A Torre nunca foi um arcano que mostrasse situações felizes, então, no momento em que há alguém dizendo que ela pode significar prosperidade, há uma quebra para além da carta. Isso também pode levar a leitura para um espaço além de um Arcano, e pode acontecer alguma leitura onde os limites chegam na próxima carta: como por exemplo uma pessoa que começa a ler o Mago e acaba falando em reflexão e silêncio, atributos clássicos da Papisa. 
Não são poucas as vezes em que Jodorowsky quebra com a tradição simbólica, e não, não estou falando de um jeito inovador e que traga uma brisa fresca para o mundo interpretativo, mas sim de uma quebra de determinados padrões de forma, ao meu ver, agressiva. Muita poética, pouca interpretação tarológica. Para Jodorowksy, por exemplo, as figuras que caem da Torre são, na realidade, os diabretes contidos no Arcano XV, o Diabo, que, agora, realizaram sua ascensão, e estão voando em alegria. Jodorowsky chega a dizer que na Torre não há destruição, mas sim uma transformação espiritual. Muito da visão de Jodorowsky sobre o Tarô está ligado à Psicomagia, método criado por ele, o que acaba misturando muita coisa. Em um livro que propõe uma restauração de um Marselha original, ter uma leitura que se baseie tanto em um próprio método me soa um tanto quanto estranho.

Dito isso, não é um livro que eu descarte. Muitas passagens são boas, mas é preciso ter um filtro muito grande, uma carga de leitura tarológica consistente, para que se saiba o que extrair. Enquanto leitura iniciante, eu não recomendo, visto que a pessoa que nunca leu nada sobre Tarô tende a fixar na mente a primeira impressão, e eu não acho que as inconsistências históricas e simbólicas propostas pelo autor sejam as mais ideias.

Julio Soares